A ocupação histórica da Baixada de Jacarepaguá remonta aos silvícolas, que se apoderaram das terras exuberantes e das lagoas piscosas, criando a toponímia: Jacarepaguá é a lagoa rasa dos jacarés, testemunho da presença dos papos amarelos desde muito tempo; Camorim é robalo, mostrando a qualidade das águas associada a este peixe; Tijuca é água ruim de beber, pois as trocas advindas das marés com a proximidade ao oceano deixavam a água bastante salobra.
Mas a história escrita da Barra da Tijuca começa com a chegada dos portugueses. Na primeira exploração do litoral, Americo Vespuccio relata na sua famosa carta ter chegado ao paraíso, quando visitou esta região, pouco antes de entrar na baía da Ilha Grande.
A origem das terras localizadas na Baixada de Jacarepaguá remete a distribuição das terras devolutas e não produtivas das cidades pelos seus governantes. Utilizando-se de uma legislação portuguesa vigente desde 1375, Salvador Correia de Sá, primeiro governador do Rio de Janeiro, distribuiu entre os membros de sua própria família, grande porções de terra. Este benefício, concedido pela Coroa Portuguesa àqueles que se dispusessem a transformar as terras ociosas em áreas povoadas e cultivadas foi primeiramente outorgado, em forma de sesmarias, a Martim Afonso de Souza, comandante da primeira expedição colonizadora. No entanto, como o antigo proprietário não teve êxito em torná-las produtivas, suas propriedades foram transferidas aos filhos de Salvador de Sá – Martim Correia de Sá e Gonçalo Correia de Sá – em 1594. A porção que coube a cada um dos filhos pode ser estabelecida por um eixo passando pelo Arroio Pavuna.
Enquanto a porção compreendida entre o arroio e o Maciço da Tijuca passou a ser de Martim Correia de Sá, o restante até os lados de Guaratiba foi dado a seu irmão Gonçalo.
Estando mortos os dois filhos de Salvador Correia de Sá, as terras foram repassadas para seus herdeiros diretos, cabendo a Salvador Correia de Sá e Benevides, a parte de seu pai Martim e à viúva Esperança e à filha Vitória as terras de Gonçalo.
Com a venda das terras de Esperança a Salvador Correia de Sá e Benevides, a quase totalidade da região de Jacarepaguá ficou concentrada nas mãos de um único ramo da família Correia de Sá. A parte que ainda cabia à Vitória foi doada em testamento ao Mosteiro de São Bento, permanecendo inalterada a situação fundiária por mais de duzentos anos.
Com a modificação do modo de produção durante o século XIX, o declínio dos canaviais, do ciclo do café e o fim da mão-de-obra escrava, os monges beneditinos não foram capazes de manter o cultivo de suas fazendas. O processo de decadência observado nas fazendas de Camorim, Vargem Pequena e Vargem
Grande ensejou a venda das terras à Companhia Engenho Central de Assucar e Álcool de Cana de Jacarepaguá em 1871.
Outro fato que também veio a modificar a dinâmica fundiária na região foi a extinção do instituto do Morgadio em 1820 e 1821.
Segundo esta lei, as propriedades imobiliárias não poderiam ser alienadas ou divididas, devendo permanecer como patrimônio da família por várias gerações.
Os descendentes de Salvador Correia de Sá e Benevides, aproveitando-se da anulação deste impedimento legal, passaram a vender suas terras que, em grande parte, foram adquiridas por Antônio Serpa Pinto. As áreas em questão, de proporções descomunais, constituíram a chamada Fazenda da Restinga, que por sua vez foi dividida em glebas menores e nomeadas com as sete primeiras letras do Alfabeto.
O Desenvolvimento
Antes mesmo da Elaboração do Plano Piloto de Lúcio Costa, foram previstas para a Baixada de Jacarepaguá, vias arteriais que cobriam todo seu território. Com a intenção de conectar os loteamentos já em desenvolvimento nos dois extremos da Baixada (Jardim Oceânico, Tijucamar na porção oriental e Recreio dos Bandeirantes a oeste) e possibilitar a ocupação de toda a porção intermediária, foi aprovado em 1951 durante o governo de Mendes de Morais, o Plano de Diretrizes para as Vias Arteriais na Planície de Jacarepaguá (PAA 5596).
Este plano já vislumbrava o enorme potencial daquela planície que nas palavras do próprio Lucio Costa pareciam não ter fim.
No entanto, mesmo com este primeiro plano de ocupação já alinhavado e com os melhoramentos das vias de acessos levados a cabo pelas gestões seguintes, o acesso a Barra da Tijuca permanecia difícil e a precariedade da infra-estrutura existente, incompatível com um crescimento mais consistente.
Nos conta a história que a ocupação da Baixada de Jacarepaguá se iniciou, de forma incipiente, nos idos de 1920 e 1930 através da Estrada dos bandeirantes pelo do Recreio - de Furnas, da Gávea e do Joá - pelo lado da Barrinha.
Portanto, devido a dificuldade do acesso tanto em uma ponta como na outra foram inicialmente utilizadas como balneários onde os mais aventureiros se dirigiam para tomar banho de mar e fazer piqueniques. Durante esta época, o mercado imobiliário de luxo que ainda não havia voltado sua atenção para esta região, concentrou suas atividades na antiga Zona Sul.
Pouco a pouco, dado a escassez das áreas disponíveis nestes bairros, observou-se a expansão da cidade em direção à faixa de terra compreendida entre a Lagoa Rodrigo de Freitas, o Oceano Atlântico e os Morros do Leme, Uribu, Babilônia, São João, Saudade, Cabritos, do Cantagalo e Dois Irmãos. Esta área, também de difícil acesso, teve sua penetração possibilitada pela construção do Túnel Velho (Túnel Alaor Prata) em 1892 que passou a conectar o Bairro de Botafogo ao de Copacabana através das ruas Real Grandeza e Siqueira Campos.
De forma semelhante à ocorrida na Barra da Tijuca oitenta anos mais tarde, diversos túneis foram utilizados para possibilitar a exploração imobiliária de áreas destinadas às populações mais abastadas.
A constituição da “Novíssima Zona Sul” na Baixada de Jacarepaguá, a partir da década de 1970, ocorreu concomitantemente à propagação de uma nova onda de especulação imobiliária nos bairros de Copacabana, Ipanema e Leblon.
Durante este período, a ação conjunta entre o Poder Público e o capital privado realizou mudanças na legislação urbanística vigente, fazendo com que esses bairros sofressem verticalização e adensamento populacional expressivo.
A Barra da Tijuca, até então desprezada pelo mercado imobiliário, passou a ser vista com outros olhos. Valendo-se por um lado da limitação de áreas livres na Zona Sul e por outro de sua beleza cênica, teve seu potencial turístico,comercial e residencial finalmente compreendidos.
Em meados de 1968, ciente das pressões do mercado imobiliário que já se faziam prementes em relação à ocupação definitiva da Baixada de Jacarepaguá, o Governador Negrão de Lima convidou o renomado urbanista Lucio Costa para desenvolver as linhas orientadoras de desenvolvimento da região.
O urbanista elevou sobremaneira a importância da elaboração do Plano Piloto, não se tratando apenas de criar as regras de ocupação para um conjunto de novos bairros, mas principalmente do restabelecimento da unidade urbana há muito perdida. A restauração do círculo Norte-sul pela ocupação deste espaço faria surgir, segundo Lucio Costa, um novo pólo estadual de convergência e irradiação, beneficiado pela abundância de espaços livres para moradia e lazer, pela proximidade com as zonas industriais e pela oferta de mão-de-obra.
Em relação à ocupação da Baixada de Jacarepaguá no período pós Plano Piloto, podemos dizer ela se deu basicamente em três subespaços. Influenciado pela sua configuração espacial e conseqüente definição das vias arteriais de circulação, a região foi primeiramente ocupada nos terrenos remanescentes das duas extremidades onde, desde a década de 40, já se formavam os loteamentos do Tijucamar, Jardim Oceânico e Recreio dos Bandeirantes.
Em seguida iniciou-se a construção dos grandes condomínios e centros comerciais ao longo da Avenida das Américas e em sua confluência com a Avenida Ayrton Senna. Datam da década de 1970 os primeiros condomínios residenciais que caracterizariam o Bairro da Barra da Tijuca. Liderado pelo Condomínio Novo Ipanema construído em 1974, outros tantos surgiram tais como o Novo Leblon, Atlântico Sul, Alfa Barra e Riviera Del Fiori.
Por fim, começaram a surgir empreendimentos nos espaços intersticiais que haviam remanescido livres dos períodos anteriores de euforia imobiliária. Terminados os grandes espaços disponíveis no eixo da Avenida das Américas, um novo vetor de expansão se formou no sentido norte-sul da Avenida Ayrton Senna. A Avenida Abelardo Bueno, que até o início da década de 1990, só abrigava o Autódromo de Jacarepaguá, começou a ser ocupada por novos condomínios, dos quais o Rio 2 – inicialmente construído pela Encol, e posteriormente finalizado pela Carvalho Hosken – foi o pioneiro.